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Então e que tal esse 2017?

por MC, em 03.01.17

mona lisa cold.jpg

 

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publicado às 21:17

O avesso da camisola amarela

por MC, em 29.05.16

(Para ti, querida R., para veres que sim, que te ouço sempre com muita atenção.)

 

A Rita sai do banho apressada e os seus olhos procuram de imediato o relógio na mesa-de-cabeceira. Outra vez atrasada. A celeridade dos gestos não se coaduna com um Domingo soalheiro de Primavera. Outro fim-de-semana que não lhe pertence. A camisola amarela repousa, plana e engomada, em cima da cama. Enquanto se veste, as várias etapas da sua vida assomam-lhe à memória como num filme antigo.

Lembra-se de quando pela primeira vez concorreu ao concurso de professores e ficou colocada numa escola a mais de trezentos quilómetros de casa, longe do morno colo familiar e do abraço do namorado, seu amor de sempre, destinado a si desde as carteiras da escola. Do quanto lhe custava sair, madrugada fora, às segundas-feiras, e de passar toda a semana sozinha num lugar que não era o dela, dos momentos de solidão e saudades de casa, onde só retornava aos fins-de-semana.

Depois casou-se e logo descobriu que estava grávida, no mesmo dia em que soube da sua próxima colocação numa nova escola, ainda mais longe do que a primeira. O desespero e a aflição não se escoavam nas lágrimas que teimavam em correr, sempre que pensava no futuro da sua vida de eterno saltimbanco, que tão bem conhecia dos colegas de estrada.

Então, através de um amigo de um amigo de uma pessoa da família, conseguiu uma entrevista de emprego no colégio da sua cidade e lá foi, a apreensão afogada na garganta, saber com que linhas se alinhavava a vida numa escola privada. Foi desde logo informada que ali se vivia a escola ‘em família’, que se ‘vestia a camisola’, que ‘se dava o tudo por tudo’ e que – como em qualquer boa família que se preze – os problemas que surgissem era resolvidos tendo em vista o bem geral da comunidade e não os interesses pessoais de cada um. Assim sendo, afiançou-lhe o senhor director de indicador em riste e semblante austero, não se admitiam ali os vícios da escola pública, a bandalheira das diatribes sindicais e os privilégios corporativos dos professores, tão prejudiciais às metas de excelência que eram apanágio daquele estabelecimento.

E lá vestiu a Rita ‘a camisola’, tantas vezes impregnada de abusos e arbitrariedades, tantas vezes encharcada de humilhações e atropelos aos seus direitos laborais, frequentemente açambarcadora voraz do tempo que havia de ser seu por direito.

E sempre que era chamada ao gabinete do director, para ouvir de viva voz e cabeça baixa as queixas de um encarregado de educação desagradado com a avaliação do seu petiz, a Rita pensava nas suas amigas e colegas do ensino público, eternas contratadas, há décadas a calcorrear quilómetros para trabalhar.

E sempre que era chamada em cima da hora para, no seu tempo livre, ir dar as aulas a que a esposa do senhor director, subitamente indisposta, não poderia comparecer, a Rita consolava-se com o privilégio que era sair do colégio, ainda que tarde e a más horas, e preparar o jantar das crianças, dar-lhes banho, poder aconchegá-las nas caminhas quentes nas noites de Inverno, todas as noites, de todas as semanas, do ano inteiro.

E sempre que comparava o seu recibo de vencimento, tantas vezes arbitraria e maldosamente amputado ao sabor de razões manhosas mas indiscutíveis, ao dos colegas da escola pública, a Rita não deixava de pensar que as escassas dezenas de euros que eles ganhavam a mais do que ela jamais chegariam para pagar as despesas, o desgaste e o desalento de estar longe dos seus.

A Rita olha para a camisola amarela em cima da cama, a camisola que resulta das decisões que tomou nas encruzilhadas da vida, das escolhas que fez e que achou que melhor serviriam o bem-estar dos seus e a sua felicidade. Sabe que regressam agora todos os medos. A angústia, a aflição e a desesperança de não ter trabalho voltam a corroer-lhe o espírito e a puxar-lhe o tapete debaixo dos pés.

Sabe isso tudo, mas não tem vontade de ir para a rua e reivindicar coisas que não são honestas. E sabe que vestir aquela camisola, naquele Domingo de Primavera, é defender o indefensável. Respira fundo, ao mesmo tempo que a enfia rapidamente pela cabeça e os braços enveredam intuitivamente pelas aberturas das mangas. Talvez se o director a vir na manifestação, envergando com dedicação e entrega a camisola amarela da causa, ela ainda tenha uma ínfima hipótese de estar entre os poucos escolhidos que mantêm o seu posto de trabalho. Não pode agora perder a esperança.

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publicado às 17:46

O Rei vai nu

por MC, em 26.05.16

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"Several visitors to the San Francisco Museum of Modern Art this week were fooled into thinking a pair of glasses set on the floor by a 17-year-old prankster was a postmodern masterpiece.

To test out the theory that people will stare at, and try and artistically interpret, anything if it’s in a gallery setting, Khayatan set a pair of glasses down and walked away.

Soon, people began to surround them, maintaining a safe distance from the ‘artwork’ and several of them taking pictures.

The teen behind the hoax had similar success with a baseball cap and a bin."    (daqui)

 

Dá-me ideia que 'o rei vai nu' com cada vez mais frequência. Não sei se a 'monárquica tendência' é apenas uma coisa estúpida ou potencialmente preocupante. 

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publicado às 18:10

Treta

por MC, em 12.01.16

A box quinou. Outra vez. Todos os programitas que gravei para degustar calmamente num dia solitário de chuva marcharam, quais escravos egípcios, a enterrar com ela. Outra vez. Toma e embrulha. Bem sei que a alegoria é rudimentar e manhosa, mas quem nos manda, a nós, pessoas de espírito simples, abraçar conceitos vagos e não fundamentados sobre a existência de amanhãs prazenteiros? :(

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publicado às 22:36

Laços

por MC, em 03.12.15

 

Percorro o longo corredor ainda mergulhado na penumbra da alvorada chuvosa. Na sala de espera, algumas pessoas aguardam já em silêncio, apesar faltar quase uma hora para o início do expediente.

No gabinete, repito distraidamente os gestos de todos os dias: água a ferver na chaleira, a chávena em espera na beira do aparador, a revista breve da agenda, a organização mental das tarefas. Sobre a secretária, no espaço livre em frente à cadeira, repousa uma pasta que não estava lá no dia anterior. A sua presença, ali imposta com um certo descaramento exibicionista, como quem desrespeita uma fila, revela um afogadilho de urgência. Tem nome de mulher e é anafada (a pasta, não a mulher), tem as entranhas atafulhadas de folhas de vários tamanhos e cores, algumas já amarelecidas por outonos antigos.

 

Uma leitura rápida das primeiras páginas confirma o apressuramento da causa. Instintivamente, abeiro-me da sala de espera e profiro o nome que consta na pasta. Uma mulher levanta-se como uma mola, os braços magros cruzados sobre uma mala preta, diz “sou eu, sou eu” e entra pressurosa no gabinete. Atrás dela, como uma sombra, entra um rapaz também esguio, de andar desengonçado de adolescente.

 

Convido-os a sentar, a mulher oferece-me um sorriso grato e diz: “ainda bem que foi a senhora que me chamou, e não o outro senhor!” Ensaio um pedido de desculpa pela descortesia de não a reconhecer também, mas sou de imediato tranquilizada que não, não nos conhecemos, mas que ela fica muito mais serena “em falando com uma senhora”.

“Sabe”, continua ela depois de instalada, “é que eu tenho muita vergonha de falar no meu caso”, declara com uma vozinha sumida, enquanto acaricia a mão do rapaz sentado ao seu lado. O miúdo é esguio, mais alto que a mãe, todo ele braços e pernas a crescer num despropósito, os joelhos ossudos, a face angulosa e pálida, a tez infantil a começar a ser contrariada por um arremedo de barba penugenta a despontar. 

 

“Não tem de ter vergonha”, asseguro-lhe: “nenhuma pessoa deveria sentir vergonha por ter sido vítima de agressão”. O rapaz desliza lateralmente na cadeira para ficar praticamente colado a ela. Agora é ele que segura a mão dela. “Não é disso que tenho vergonha”, diz ela. “Envergonho-me de ter escolhido aquele homem para pai do meu filho, sabe? Fui eu que o aceitei. A culpa de tudo o que se tem passado é minha, sabe? Eu é que quis namorar com ele, eu é que fugi de casa para estar com ele, eu é que decidi ter um filho para ver se as coisas melhoravam, percebe? Eu é que sou responsável pela vida miserável deste menino, essa é que é a verdade”.  As lágrimas caem livremente e realçam-lhe as olheiras arroxeadas. O rapaz escuta-a, aflito, e segue as suas palavras com os olhos a transbordar de choro e meiguice.

 

Aceitam o chá que lhes ofereço. As canecas fumegantes ocupam-lhes as mãos e amparam-lhes o olhar. A mulher desenrola o seu novelo, conta pelos dedos as agressões que ambos sofreram, as estadias no hospital, as queixas na polícia, as agruras das audições, as comparências em tribunal, mostra as cicatrizes de um e outro, as mazelas nos ossos, os vestígios das feridas, a voragem do medo, o negrume da perpétua agonia a roer-lhes o espírito. Por duas vezes ganharam ânsias de fugir, foram ajudados, saíram silenciosamente, escondidos no negro da noite. Por duas vezes começaram de novo, longe, uma vida de pacatez e mansidão, sempre interrompida pelo terror de terem sido novamente encontrados.

 

Estão os dois encostados um ao outro, como siameses compactamente unidos. “Cá estamos mais uma vez a precisar ajuda”, remata a mulher, as lágrimas ainda a correr-lhe no rosto branco. Estão imóveis, os dois, o choro a exacerbar-lhes o cansaço. A certa altura, a mulher repara no rosto desfigurado do rapaz: os olhos vermelhos das lágrimas, o nariz, demasiado grande, vermelho e inchado, a humidade do ranho a descer-lhe para os lábios. Tira então da mala um gracioso e delicado lencinho e, segurando-o com elegância entre o polegar e o indicador, assoa o nariz do seu menino, num gesto carregado de infinita ternura e de um amor avassalador, tão real e tangível, claramente tão maior e mais forte do que a estúpida bestialidade que os persegue. 

 

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publicado às 18:44

Nódoa de azeite

por MC, em 30.10.15

Vivemos tempos extraordinários de desenvolvimento nas várias vertentes do conhecimento. As descobertas científicas e a evolução tecnonógica desenrolam-se a um ritmo tal que, apesar da acessibilidade e celeridade da partilha de informação, torna-se impraticável ao cidadão comum (i.e., eu), na voracidade dos dias, uma permanente e atempada actualização de conhecimentos. 

É, não é? Muito bem.

Agora que atingimos uma plataforma de entendimento acerca da fundamentação conceptual da ignorância do cidadão comum (ainda eu), alguma alma caridosa faz a fineza de me explicar o que camandro é uma "azeitona mítica"?

 

azeitona1.jpg

 

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publicado às 23:33


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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